quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Resenha: "A Passagem"



Justin Cronin nasceu e foi criado na Inglaterra, formou-se em Harvard e leciona na Rice University, no Texas, onde mora atualmente com sua esposa e filhas. Venceu vários prêmios literários e já escreveu alguns outros livros, mas A Passagem marcou o início de uma nova era em sua carreira.

A Passagem nos conta sobre um vírus modificado pelos laboratórios do governo norte-americano que pode ser útil para o uso em guerra, prometendo aumentar a imunidade humana. O vírus é estudado e usado em cobaias para provar sua eficácia, porém algo acontece de errado quando aplicado em humanos. Eles se tornam criaturas horrendas e sugadoras de sangue, com uma forma sobre-humana e um instinto de sobrevivência de espécie apurado. 

Amy, uma garotinha de 6 anos abandonada pela mãe em um convento, é designada para o papel de cobaia do experimento e cabe ao agente Brad Wolgast levar a menina para a base de operações. Sensibilizado com a ideia de usarem a garota como objeto de experimento, Wolgast tenta protegê-la. 

Já na base militar, Brad não tem escolha senão deixar com que apliquem o vírus em Amy e, logo depois, o alerta é soado. A primeira cobaia escapou de sua prisão e o quartel corre perigo. Com a ajuda de seu companheiro e de uma das irmãs que ficaram com Amy no convento, Wolgast leva a menina para além das montanhas na tentativa de protegê-la de todo caos que a fuga das cobaias trouxe.

Noventa e seis anos mais tarde, os experimentos já tomaram conta da América do Norte. Obrigaram o ser humano a construir colônias de sobrevivência na esperança de dias melhores. Petter é vigia em um dos principais povoamentos e ao se deparar com Amy e sua estranha habilidade de "controlar" os afetados pelo vírus, vê na garota um ponto de esperança na humanidade devastada, um tipo de luz salvadora que poderá livrar todos da extinção completa. 

Cronin trouxe um tipo diferente de narrativa. O uso de e-mails, diários e relatórios militares enriqueceu a narrativa de uma forma impressionante. Somos apresentados a fatos por pontos de vista diferentes que nos faz conectar um acontecimento ao outro formando uma rede complexa e muito bem estruturada. Muitas vezes o autor nos induz a imaginar um certo desfecho para alguma situação, porém quebra nossas expectativas superando-as magistralmente. 

Uma peculiaridade fascinante no livro são as pequenas "biografias" apresentadas. Justin teve o dom de contar-nos histórias fascinantes de personagens, por mais secundários que eles fossem. Fazia-nos entender suas atuais ações e pensamentos agregando à obra uma infinidade de particularidades e personalidades. Os mesmos se mostram interessantes e nos conquistam a ponto de nos sentirmos órfãos quando algum morre. Cativantes e ilustres características montam o elenco da trama de Cronin de uma forma leve e ao mesmo tempo intensa. Os medos de cada um, os sonhos, todos passados de maneira sofrega  e inigualável.

Cronin tem um estilo na sua escrita que, no começo da obra, chegou a me incomodar. O uso constante de vírgulas que, tecnicamente, não precisariam estar ali, chegou a me fazer pensar em erro de edição. Mas observando mais atentamente a estrutura da narrativa, nota-se que essa forma de colocação de vírgulas deu um ar de continuidade no texto. Como se o autor quisesse continuar a ideia, porém não o faz, deixando no ar para que o leitor prossiga. Uma técnica incrível.

É um suspense para aqueles que já não suportam mais as histórias de vampiros repetitivas e enfadonhas. O mistério do que são e como tudo pode acabar fica no ar prendendo sua atenção e fazendo sua cabeça trabalhar em suposições e soluções. Vejo que Stephen King estava certo sobre a obra. É, definitivamente, "um livro com a força dos épicos" e esperamos muito mais na continuação dessa trilogia.

- Camila Fencz


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