segunda-feira, 23 de maio de 2016

Globo x Record: um fato, duas coberturas

No sábado (21), a modelo e apresentadora Ana Hickmann foi vítima de um ataque de fã no hotel em que estava hospedada em Minas Gerais. As duas maiores emissoras do Brasil, Rede Globo e Record, noticiaram o acontecimento de duas formas diferentes. Enquanto a primeira foi seca e concisa, a segunda abusou do emocional.
No sábado, logo após o acontecimento, a Record fez um link ao vivo em frente ao hotel. Sem todas as informações, a rede transmitiu apenas o básico, que Ana Hickmann havia sido vítima de um atentado. Enquanto isso, a Globo não se  manifestou quanto ao acontecimento. 
Durante o restante da noite de sábado e todos os programas da Record do domingo, o assunto foi abordado e incrementado com mais informações. A emissora apelou para entrevistas de pessoas não envolvidas com o atentado e especialistas, para tentar manter vivo esse assunto.
Nos intervalos, sempre se prendia a atenção do telespectador para a entrevista exclusiva que a Ana daria no programa de maior audiência da emissora, o Domingo Espetacular. Enquanto isso, a Globo não se manisfestou durante o sábado e o dia do domingo. Sendo assim, apenas transmitiu uma pequena matéria de 50 segundos no Fantástico.
A Record, abusando do acesso que tinha com os envolvidos e as vítimas passou grande parte do programa de domingo anunciando as matérias e soltando notas para envolver o telespectador. Durante a reportagem propriamente dita, de mais de 10 minutos, a emissora abusou das reconstituições de cena do crime e das entrevistas, sendo anunciadas como exclusivas.
A atenção principal ficou por conta da entrevista dada pela apresentadora completamente emocionada, Ana conta do começo ao fim da história entre soluços e choros. A entrevista com o cunhado da vítima também foi anunciada como exclusiva, evidenciando o aspecto de legítima defesa. 
Desse modo. concluímos que pela maior representatividade de Ana na Record, ela foi mais valorizada para a cobertura desse acontecimento. Podemos notar que a falta de interesse da Globo foi quase uma maneira de não enaltecer a apresentadora de outra emissora.

Camila Fencz e Gedmila Alves

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Resenha: "Barba Ensopada de Sangue"



Daniel Galera é um escritor nacional contemporâneo, nasceu em São Paulo, mas viveu grande parte de sua vida em Porto Alegre, onde reside atualmente, e em Garopaba, Santa Catarina. Formou-se em publicidade na UFRGS, fundou a editora Livros do Mal voltada para a nova literatura e conquistou o cargo de coordenador do Livro e da Literatura na Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre.

Além de escritor, é tradutor literário e também um dos precursores do uso da internet para a literatura, com edições e publicações de textos para sites. Ganhou o Prêmio Machado de Assis de Romance por Cordilheira e o terceiro lugar do Prêmio Jabuti. Já escreveu quatro livros e teve algumas participações em antologias de contos. Barba Ensopada de Sangue é seu último livro lançado.

Nesse romance, somos apresentados a um professor de educação física (cujo nome não sabemos) que buscou refúgio em Garopaba, Santa Catarina, depois da morte conturbada de seu pai. O personagem, além de portador de uma doença rara que faz com que se esqueça do rosto das pessoas, é inserido no mistério que circula a morte de seu avô, Galdério, nessa mesma cidadezinha litorânea que escolheu para alguns dias de paz.

Curioso acima de tudo, sempre que tem oportunidade pergunta para os moradores mais antigos sobre o velho Galdério, porém só recebe em troca olhares desconfiados e o silêncio de todos os moradores. Como se só este mistério não bastasse, sua doença faz com que se relacione de uma forma diferente com as pessoas e seu passado, ainda como uma ferida aberta, ainda a latejar de dor.

Daniel Galera tem uma forma de escrita que nunca tinha presenciado. É forte, dinâmico e até perturbador. As falas são colocadas como se fossem um elemento surpresa, como se Galera quisesse nos surpreender na leitura como nos surpreendemos no dia-a-dia com as falas das pessoas. Em um primeiro momento me senti incomodada com a linguagem com que escreve os diálogos, completamente informal. É como se estivéssemos realmente conversando com alguém de Garopaba, com todos os seus vícios de linguagem e expressões diferentes.

O romance tem uma peculiaridade que foi o que me deixou mais apaixonada por ele. A história é contada em primeira pessoas, logo, inconscientemente, já imaginamos que "entraremos" na cabeça do personagem e saberemos de tudo o que se passa com ele. Porém, Daniel nos impressiona mais uma vez, com uma narrativa em primeira pessoa e impessoal. Controverso, lemos as ações do personagem e criamos uma ânsia louca para saber o motivo de suas atitudes. Esperamos explicações que não vêm e somos obrigados a analisar como um elemento de fora que fomos obrigados a ser. Os sentimentos nunca são explícitos, os motivos, o passado, tudo se torna tão misterioso quanto o próprio Galdério. 

Daniel Galera não foi menos do que genial ao escrever esse livro. É o tipo de literatura que, não só entretêm,     como também obriga o leitor a fazer um bico como psicólogo. A literatura nacional deve se sentir privilegiada por ter em seu acervo uma riqueza como Barbar Ensopada de Sangue e Galera provou, mais uma vez, que o Brasil tem sim escritores maravilhosos que só esperam pelo devido reconhecimento.

- Camila Fencz

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Resenha: "Tim"



Colleen MacCullough nasceu em Wellington, Austrália, em 1937. Escreveu um grande best-seller, Pássaros Feridos, e hoje mora com seu marido em uma ilha no Pacífico Sul, enquanto é tida como um dos tesouros da literatura australiana.

Em Tim, Mary Hourton é um solteirona de 40 anos e não vê mais nada na vida que não seja seu emprego perfeitamente estável. Dona de costumes ultrapassados e um jeito duro de ver a vida, Mary é colocada em uma posição de extrema confusão quando se depara com o jovem Tim, um ajudante dos pedreiros que trabalhavam para sua vizinha, e fica maravilhada com a beleza do garoto, digna de colocar a mais perfeita escultura em um patamar inferior. 

Quando seu jardineiro perfeitamente periódico resolve não mais trabalhar para si, Mary pergunta para Tim se ele não gostaria de cuidar do jardim todos os sábados. Feliz com os trocados extras que viriam, o garoto aceita a proposta e passa a visitar todas as semanas a casa da velha solteirona. É em uma dessas visitas que Mary nota algo de diferente no garoto. A ingenuidade que ele transbordava não eram características de rapazes na casa dos 20 anos, como ele. Então fica sabendo, pela mesma vizinha que contratara os pedreiros, que Tim sofre de um retardo mental ocasionado pela idade da mãe ao engravidar dele. Tocada com a história do garoto, Mrs. Hourton entra cada vez mais na vida dele e se vê envolvida com toda aura que essa companhia lhe passa.

Colleen tem um dom maravilhoso de transformar um romance que, a princípio, pareceria clichê em algo completamente emocionante. Envolta por uma narrativa delicada, a trama é trabalhada com foco em Mary e sua mente conturbada. Temos uma visão de alguém que, com uma vida inteira regada à regras e normas, se vê, pelo primeira vez, quebrando-as e se libertando para o que realmente sente e deseja fazer. É como se compartilhássemos da angústia e dos prazeres que a personagem é acometida em todas as reviravoltas do livro, levando-nos a pensar que nem sempre o que nos é imposto e, por mais certo que ele pareça, é o ideal para nós.

Somos inseridos em uma família que luta ao lado de um filho retardado. Sim, a palavra usada não é 'especial' ou 'deficiente'. A brutalidade com que lidam com a situação de Tim me passa a visão de uma sociedade despreparada para lidar com pessoas diferentes. Mesmo assim, os pais do jovem são o exemplo de como se deve tratar pessoas com necessidades especiais, como se dissessem para todos que não importa se o garoto é retardado ou não, ele continua sendo um homem e, como tal, têm necessidades de um.

O mais bonito de se notar no livro é a delicadeza com que autora trata a evolução, não só intelectual, mas também emocional de Tim. Ela usa o choro como demonstração chave e nos faz perceber que, quando ele ainda era imaturo, ou seja, antes de conhecer Mary, chorava soluçando como uma criança e, logo depois de passar por experiências que o amadureceram ao lado da mulher, chora agora em silêncio, como um homem. É a demostração mais sutil e complexa de crescimento interior que a autora poderia usar, junto com o aflorar de novos sentimento dentro de Tim que antes ele não sabia existir.

É um romance tão bonito e intenso quanto perturbador para alguns. Talvez a ideia de uma senhora se envolvendo com um garoto especial seja estranho, mas não podemos deixar de lado toda lição de vida que uma obra como essa nos transmite, mesmo sendo polêmica. Colleen foi genial ao usar uma história dessa intensidade para nos mostrar que todos são perfeitamente iguais e merecemos ser tratados como tal, independente de qualquer coisa. 

E esse livro levará:






CINCO CORUJINHAS
  
- Camila Fencz